sexta-feira, 18 de março de 2011

Todo Carnaval tem seu fim

            

   " Paz, carnaval, futebol ... Não mata, não engorda e não faz mal."

 Assim perpetuou Cláudia Leitte, grande filósofa (MAS NEM A PAU!) brasileira. E olha: até que faz sentido.
E como pode uma letra tão tosca que nem essa fazer um mísero sentido? Bem, a história começa na minha relação com o carnaval.
 Quando eu era mais nova, odiava o carnaval. Achava que era tosco e decadente (bem,é um pouco,mas enfim...). Ainda mais que tinha aglomeração (tinha pavor e até um certo ódio por aglomeração). Tanto que uma vez,quando passei o carnaval em casa no meu apartamento anterior, minha família ficou na sala vendo farofada (ou Globeleza para os acostumados), eu fiquei no meu quarto assistindo MTV ( é, exatamente o oposto!) e seus intermináveis blocos de clipes de bandas de rock. Tinha até Cachorro Grande. Meu pai ficou incomodado com isso.
  Mas muito tempo se passou. E eu mudei. Sou uma roqueira convicta ( ROCK NA VÉIA,MANO!), mas eu fiquei ... Não, melhor: eu estou mais eclética, minha mente está mais aberta para novos sons e novos tipos de dança. Me arrisco até requebrando na boquinha da garrafa ou sambando que nem um gringo idiota.
  Bem, e essa introdução espetacular ( não para você, mas para mim hahahaha), quero fazer um post sobre o carnaval. Isso aí. Já percebu o clima de folia né, espertinho?
  Pois vou começar: minha mãe ia para o Rio com meu pai. Das Antas ? Não, engraçadinho. Rio de Janeiro, onde o tem o melhor carnaval do mundo ( bem, nunca fui lá para ver, mas é o que dizem). Não estava certo isso, mas no final rolou. Meu irmão ia para Camboriú ( quem pode, pode né ?), minha irmã ia para uma cidadezinha perto da Lagoa dos Patos com os amigos dela e a minha prima, e a Sofia (até a Sofia tinha lugar para ir!) ia viajar inté Garopaba com o pai dela. Então eu, a caçula da casa, com uma vida social nem tão movimentada assim, tinha que arranjar um programão para o Carnaval. No começo, até queria ficar sozinha em casa. Ia ser foda. Mas como eu só tenho 15 e minha mãe não deixaria a caçulinha ao deus-dará (sou ateia, mas foda-se se eu uso expressão cristã). Conversei com as minhas amigas para ver se elas iam fazer algo ou se tinha um lugar paieu. Nós até combinamos algo para o Carnaval mas sacomé, no final nem rolou nada.
   Daí, as minha opções eram ir com a minha irmã e cia. limitada para o Carnaval de Arambaré, ou IR COM A MINHA IRMÃ E CIA. LIMITADA PARA O CARNAVAL DE ARAMBARÉ. É óbvio que eu escolhi a segunda opção, não sou boba. Então me preparei com roupas,mantimentos e presença de espírito. Os preparativos estavam a mil. E então chegou o grande dia. Primeiro levamos minha mãe no aeroporto antes das 6 da matina (horário de voo bem stranger). Voltamos para casa, eu e a Gi. Capotamos de sono. Então acordamos umas três horas depois para os preparos gerais. Depois de carregar o carro, botar as caronas dentro (minha prima Carol e a amiga dela, a Amanda), parar no super e parar no posto, seguimos estrada afora. Bem on the road pela BR-116. O carro tomado pelas mulheres, a sensação de liberdade, a paisagem bacaninha e os pedágios baratos de doer ( é ironia, tavam um assalto) fizeram da viagem algo sem igual. Bem, deve ter igual, mas para mim é sem comparação.
   Estava tudo muito bem, estávamos quase chegando em Aramba ( para os íntimos pakspsaksasas) quando liga uma outra amiga da minha prima, que estava com o acompanhante em um carro atrás.Fomos para lá. Um bêbado muito esquizofrênico bateu na frente do carro. Muito trouxa. E pior: o carro não era dele e eles bateram em uma estrada de chão que não tinha mais fim. Tudo para dar certo. Voou até roda e mola do carro do bêbado. A Gi pegou a mola e botou no nosso carro ( lembrancinha de carnaval). Viemos com o carro superlotado.Ô coisa boa. Chegamos em Arambaré daí. Nós tínhamos que ir para o camping municipal.
    Os guris se acamparam por lá, porque os outros campings tavam lotados. E olha que o camping que eles tavam era no fim da cidade. Fiquei por lá com os guris arrumando a barraca king size que a Gi trouxe, conversando com os guris e fazendo a social com os vizinhos de barraca. Um dos vizinhos era o mestre de cerimônias do carnaval da cidade ( sou foda ♪) e tinha umas gurias de Camaquã,que era do lado ( muito queridas). Nós estávamos em 14 pessoas. 14! A gente era um bonde, podíamos formar um bloco mas não houve preparo. E as nossas barracas estavam todas amontoadas em um canto divisa com um matinho legal onde se encontravam cobrinhas ( vi uma cobra verde ali perto) e outros amiguinhos silvestres. Era uma cohab praticamente . Cohab, para os leigos, é abreviatura de conjunto habitacional, onde vivem pessoas com casinhas iguais,tudo socado no mesmo lugar. Enfim, 14 pessoas! Era muita gente.

    ♪ Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão ! De dia é Maria, de noite é João ♪
         ( Marchinha da Maria Sapatão, sei lá qual o nome)

    Todo mundo se arrumava e saíamos umas 9 ou 10 da noite com um kit de comes e bebes e caminhávamos   uns 3 ou 4 km até o Centro da cidade, onde rolava o fervo do carnaval de rua. Uns em slow-motion, bebendo alguma coisa, outros rapidinhos para não perder o pique. Assim como nosso bloco da cohab (apelido carinhoso que inventei para nosso grupo), muitos faziam o mesmo caminho de peregrinação até a diversão. Jantávamos por lá mesmo. Em um dos dias, jantei crepe. A guria que fazia os crepes fez como a maldita cara dela, porque ela botou pedaços de chocolate do tamanho do meu mindinho e ainda fez eu queimar a língua. Aí é foda. E depois, a gente ficava perambulando e curtindo a vibe do Carnavaré (= Carnaval de Arambaré). Olha, vou dizer uma coisa: tinha muita gente. Muito nativo da região, mas muita gente. Era homem vestido de mulher, skinheads ( os skinheads acamparam na beira da lagoa), rockers, funkeiros, micareteiros, famílias, casais, blocos, tudo que tu pode imaginar.
   Tinha muito vendedor ambulante de neve artificial ( vulgo espuminha divertida). Comprava umas 2 ou 4 dessas ( comprava em pares porque eram 2 por 10 e me parecia bom e barato :D). E o carnaval, então. Tocava de tudo. A música da Maria Sapatão era apenas uma entre tantas outras que tocaram à exaustão todas as noites. Funk, samba, pagode, axé, lambada ( ♪ Dançando lambada ♪)... Tocou até rock. Quando tocava "Tropa de Elite", "Anna Julia" ( dale Los Hermanos!), músicas dos Mamonas Assassinas e Raimundos, aquela era a minha deixa pra eu pular, gritar e fazer uma rodinha punk básica de todo roqueiro.
   A gente ficava até umas 6 da manhã. Depois a gente caminhava de novo até a cohab no camping, só que indo pela beira da lagoa, já que passava uns tchuco ( leia-se bêbados) passavam com seus chevettes da vida acelerando a toda. Chegando no camping, capotávamos nas barracas. Daí eu acordava lá por umas 11, quase meio-dia pra tomar café da manhã. Pão, patê, nescauzinho básico, leitinho, copos descartáveis de 750 ml , tudo organizadinho em uma mesa de madeira improvisada pelo nosso mestre de cerimônias, um verdadeiro McGyver da vida ( se tu não sabe quem é McGyver, procura no tio Google, pode ser?). Almoço era um genuíno salchipão ( no meio da cohab tinha uma churrasqueira de lajotinha improvisada) e um frango bem temperado. Muito bom. Depois a gente comia um doce. Teve um dia que até distribui bis pra galera. Daí  ia pro meu colchãozinho inflável e dormia uma sesta.
    Teve um dia que foi muito engraçado. A barraca da Fran (a amiga da minha prima que bateu o carro) se movimentou. Tava ela e o Jeferson, que veio com ela no carro que deu perda total. Aí eu tava sentada ali fora com os guris, e o Rafa ( melhor amigo da Gi e da família) e fez uns comentários de arreganho. Ela saiu da barraca e brigou com os caras por causa dos comentários. Chamou todo mundo de idiota. E era idiota todo o tempo. Aí ficou a palavra. Tudo a gente falava "mas que coisa idiota". Nunca ri tanto da palavra "idiota" como nesse carnaval.
     Mas o horror era a hora do banho. O banheiro comunitário era fedido, sujo, cheio de formiga e cheio de mulher feia. Fazer o que, né... Tem em qualquer lugar. Teve uma porca que teve a capacidade de deixar um maldito absorvente enrolado no chão lá no chuveiro. MAS QUE PORRA! FAZ ISSO NA TUA CASA, SUA PORCA! Ufa, isso tava trancado.
    E finalmente, melhor momento do dia: ir na lagoa. O camping era exatamente uns 20 metros da lagoa, e era muito bom. A lagoa é rasa demais. Tu vai tri pro fundo, mas continua no raso. Muito tri. Minha mãe contou que uma vez o meu tio, quando tinha a minha idade, ficou conversando numa boia ( tipo roda de caminhão mesmo) com um guria na Lagoa dos Patos. E daí, eles começaram a ir muito pro fundo. Foram tanto que quando foram sair da boia, os pés não tocavam o chão. Então,eles começaram a nadar em cima da boia até a beira. Pois é, coisa de louco.
    Teve um dia que eu, o Rafa e a Amanda fomos pra beira da lagoa. Isso era umas 5h30, por aí. A gente tava esperando o sol nascer. Ficamos ali batendo um papo,olhando as nuvens e tal, de repente o Rafa grita:
    - OLHA LÁ! TÁ NASCENDO O SOL! OLHA ELE VINDO!
    Daí a gente viu o começo daquele bola de fogo saindo de trás da lagoa. Na hora, nós três fizemos um "uau" tipo E.T. , o Extraterrestre, sabe? Foi uma das melhores coisas que já vi na minha vida. Era a primeira vez que eu vi ele nascer. Um espetáculo natural.
    E, claro, as infalíveis cantadas dos guris. Eu destaco duas que me marcaram, de autoria do Vini e do Chocolate, membros da cohab.
    "Gosta de chocolate? Prazer, chocolate."
    "Gosta de peixe? Prazer, muleke piranha."

    Já sabe, se quer se dar bem na night, usa uma dessas que é batata.
    Enfim, o carnaval foi marcante pra mim. Marcante porque me diverti muito como nunca, descobri o significado da palavra " desencanar" convivendo com gente tri parceria, vi que socializar com gente mais velha é tri e que dias assim com gente assim não é sempre, então quando tem que aproveitar.
    Moral da história: aproveite a vida, não leve as coisas tão a sério, curta as companhias que tu tem, porque muitas vezes o lugar é uma birosca braba, mas se tiver uma boa companhia, já vai ficando. Desencana, tchê!
    Acabo por aqui, agradecendo a todo os idiotas que tava lá na cohab.E até mais, bando de idiotas!

Um comentário:

  1. Hahahahaha... Jack muuito bom. Esse carnaval vai ficar pra sempre na história.
    Eu só não entendi a parte de: socializar com pessoas mais velhas oO
    hahahha.
    Beijo prima.

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